Como Meditar Sobre Bodhichitta

No começo, podemos ficar muito frustrados se tentarmos pensar no que realmente significa a iluminação e ter todas as qualidades de um buda — ser capaz de beneficiar cada indivíduo de acordo com suas necessidades, ser capaz de falar em um idioma que todos entendem, ser capaz de multiplicar-se em milhões ou bilhões de formas e assim por diante. Portanto, precisamos focar apenas na ideia geral do que significa a iluminação, e no sentimento de que isso realmente é nossa futura iluminação.

No começo, precisamos cultivar o estado de mente e coração de bodhichitta. Só quando estivermos mais avançados no caminho é que esse estado surgirá automaticamente. Para gerar esse estado mental, usamos a meditação de causa e efeito de sete partes ou a meditação de igualar-se e trocar de lugar com os outros. Mas agora não é a hora de entrar em detalhes sobre como fazer isso. No que diz respeito ao sentimento que estamos tentando gerar, o que mais importa é estarmos abertos  para ampliar bastante as fronteiras daquilo com o que nos importamos.

Não importa se o sentimento não é forte no começo. Ele ficará mais forte com o tempo.  É como no caso da visualização: ela fica mais clara à medida que praticamos. Só queremos ampliar a abrangência de nossa mente: “Todos são iguais, portanto, devo me importar igualmente com todos”.  Não se fixe em detalhes do tipo: “E as baratas?” ou “E os mosquitos?” ou “E as criaturas dos infernos?” Isso são detalhes. O importante é ampliar a abrangência de nossa mente, ter essa abertura, essa amplitude.

Então adicionamos a essa abertura o sentimento de “quero ser feliz, assim como todo mundo. Não quero sofrer, assim como todo mundo. Somos todos iguais nisso.” Deixamos esses sentimentos de querer ser feliz e não querer ser infeliz expandir além das fronteiras de nosso senso habitual de “eu”. Ficamos abertos e deixamos esse sentimento irradiar-se. Então acrescentamos o seguinte pensamento: “Para que eu realmente seja capaz de trazer felicidade a mim e aos outros, preciso alcançar a iluminação, e todos os outros seres também”, sentindo fortemente que “eu realmente quero fazer isso, por mim e por todos os seres”.

É como se houvesse um sol de amor, compaixão e interesse pelos demais dentro de nós, querendo brilhar sobre todos os seres e levá-los à iluminação. O que queremos fazer é nos livrar da demarcação que limita nosso interesse a apenas nós mesmos, e imaginar esse sol brilhando até o infinito. Não se preocupe com a distância — “se é mil quilômetros, um milhão de quilômetros ou vinte milhões de anos luz” — amor, compaixão e interesse imensuráveis e ilimitados. Esse é o ponto: ter um coração muito, muito vasto e uma mente muito, muito vasta.

Então pensamos: “Iluminação: é isso que preciso alcançar.” E, novamente, não precisamos de todos os detalhes, apenas de um sentimento genérico. O sentimento é: “esse é o estado mais elevado possível, o estado mais elevado de evolução, onde todas as minhas limitações são removidas”.  Apenas tente sentir essa expansão. Não importa quanto tempo levaremos para atingir a iluminação. Portanto, existe um sentimento de expansão em relação ao tempo também. Existe essa área muito, mas muito vasta que engloba todas as dimensões: a dimensão espacial, a dimensão do tempo, a dimensão do desenvolvimento e a dimensão das qualidades. Novamente, não se preocupe com os detalhes. Apenas sinta essa vastidão, uma vastidão de calor humano.  Este é o significado de “maha” Mahayana: vasto.

Então, nisso há — como em uma ilusão — a forma de um buda. Se nos visualizamos como figuras búdicas, no tantra, ou se visualizamos a figura à nossa frente, não importa. Podemos também fazer no estilo mahamudra, onde a natureza da própria mente, a clareza da própria mente, é o que representa o que estamos tentando alcançar. Isso também é um foco. Assim, temos um foco dual —essa vastidão e uma representação dela. É como um imã; somo atraídos por essa representação e por esse vasto escopo. É nisso que focamos com bodhichitta. 

Portanto, bodhichitta não é apenas compaixão: ”Oh, pobre de você aí na rua, quero te ajudar.” Não é assim; é algo muito mais vasto.  Esse é o estado mental que queremos desenvolver. Me traz lágrimas aos olhos. Nosso coração fica tão cheio, é tão assoberbante. É realmente um estado mental extraordinário.

Agora, a questão sobre a possibilidade de nos iluminarmos é muito difícil. É muito difícil nos convencermos totalmente apenas através da lógica. Então, o que podemos fazer é dar o benefício da dúvida, que é como nós, especialmente nós ocidentais, tendemos a abordar a questão do renascimento. Ou seja, dizemos: “Bom, suponhamos que seja possível. Então vamos ver onde isso nos leva. Serei paciente porque percebo que é algo muito difícil de entender e de se convencer. E levarei anos e anos para atingir esse nível. E nunca acontecerá assim: “Aleluia, agora acredito!”” Então trabalhamos com a ideia. Acostumamos nossa mente a ela.

Com o que trabalhamos? Trabalhamos com a natureza búdica, conforme diz aqui. E do que estamos falando? A natureza búdica é um aspecto, ou melhor, uma rede de aspectos, que faz com que esse desenvolvimento seja possível. 

Temos vários aspectos que podem ser estimulados e desenvolvidos. Por exemplo, existe a afetuosidade natural da mente; o instinto de cuidar de alguém; a qualidade natural da mente de emitir energia — a capacidade da mente de comunicar, de compreender, de sentir; a rede de força positiva e consciência profunda (mérito e sabedoria) que é imputada em nosso continuum mental. Todas essas qualidades, que já estão lá, podem ser cada vez mais desenvolvidas

Existe também a natureza búdica sempre presente, a vacuidade da mente. Ela também é uma aspecto da natureza búdica. A vacuidade da mente permite mudança, desenvolvimento.

O terceiro tipo de aspecto da natureza búdica é a capacidade da mente em inspirar-se a desenvolver e crescer: não somos como as pedras.

Focar nesses três tipos de aspectos da natureza búdica nos encoraja. Sabemos que podemos atingir a iluminação com base nesses aspectos.

Em suma, temos uma ligeira ideia das qualidades de buda que estamos tentando desenvolver, mas não nos fixamos nisso, pois nos desencorajaríamos. Focamos no sentimento de ser possível crescer, de que temos os aspectos causais para atingir a iluminação. Quando temos esse sentimento, e nossa mente tem esse escopo de grande vastidão, começamos a ser capaz de realmente meditar em bodhichitta.

Se trabalhamos tendo como base a natureza búdica, e nossa mente estiver aberta a essa vastidão, não nos desencorajaremos. A compreensão do verdadeiro significado do budato e a convicção de que é possível atingi-lo virá mais tarde.  O principal é a sensação de vastidão e a afetuosidade que é faz parte dela, e a confiança de que a base para trabalharmos está presente.

Não entre em um estado mental de “Não consigo. É demais para mim. É impossível”. Nesse caso, estaríamos nos identificando com o “eu” limitado. E ao invés de ter o orgulho da deidade, teríamos o orgulho do “eu” samsárico, o que não ajuda em nada, especialmente se nos lembrarmos da vacuidade disso, de “isso é besteira. Eu não sou assim”. Nosso foco está no fato de nossa futura iluminação ainda não ter acontecido — sabemos que ainda não chegamos lá. Portanto, não que estamos nos enganando.

Trecho do texto: Overcoming Discouragement

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