Expandindo a Base sob a Qual Imputamos o “Eu”

Das 37 práticas do bodhisattva, a décima primeira é:

(11) A prática de um bodhisattva é trocar, com pureza, sua felicidade pessoal pelo sofrimento alheio, porque (todo) o sofrimento, sem exceção, vem de desejarmos nossa própria felicidade, enquanto um Buda totalmente iluminado nasce da atitude de desejar o bem aos outros.

Primeiro temos que equalizar nossa atitude em relação aos demais. Essa prática baseia-se na mesma equanimidade utilizada no primeiro método de desenvolvimento de bodhichitta, onde deixamos de sentir atração por alguns e aversão ou indiferença por outros.  Mas, aqui, vamos um pouco adiante, nos igualamos aos outros. Isso significa que nós e todos os demais somos iguais em querermos felicidade e não querermos infelicidade. E mais, todos temos o direito a essa felicidade e a não sermos infelizes, independente do que fazemos. Então, porque cuidar apenas de nossa própria felicidade? Em Engajando-se no Comportamento do Bodhisattva, Shantideva diz:

(VIII.95) Uma vez que todos desejam felicidade, que tanto eu quanto os outros desejamos ser felizes, o que há de tão especial a meu respeito para que eu cuide de mim e não dos outros?

(VIII.96) E uma vez que ninguém gosta de sofrer, nem eu e nem os outros, o que há de tão especial a meu respeito para que eu cuide de mim e não dos outros?

Quando assim igualamos todos os seres, passamos a formar um único corpo de vida, da mesma forma que as diversas partes do nosso corpo formam um único corpo. Shantideva nos dá uma bela explicação:

(VIII.91) Assim como o corpo deve ser cuidado como um todo, apesar de suas diversas partes, como a mão e assim por diante, os seres sencientes, apesar de suas diferenças, são todos iguais a mim no que diz respeito à felicidade e ao sofrimento, portanto, formamos um todo. 

Não podemos dizer que uma parte do corpo necessite de mais cuidados do que outra, que é mais importante que uma determinada parte não sinta dor. Todas as partes são iguais. Então não podemos dizer que uma mão, por exemplo, só deveria cuidar de mãos. Se um de nossos pés estivesse com dor porque pisou em um espinho, nossa mão imediatamente o ajudaria. A mesma lógica se aplica ao cuidado com os outros.

Shantideva colocou da seguinte forma:

(VIII.99) Se quem tem de cuidar de um sofrimento é aquele a quem ele pertence, porque a mão cuida do sofrimento do pé se ele não a pertence?

(VIII.100) Apesar de não fazer sentido, é assim que funciona, por causa do conceito de um “eu”.  Bom, mas é claro que devemos descartar ao máximo o que não faz sentido no que se refere ao [“todo” formado por] eu e os outros.

O problema está na base sob a qual rotulamos o “eu”. Será que o rotulamos com base na mão ou em todo o corpo? Será que o estamos rotulando com base apenas na nossa pessoa? Será que podemos rotulá-lo tendo qualquer um ou mesmo a todos como base? Shantideva diz:

(VIII.92) Apesar da minha própria dor não machucar o corpo dos outros, [para mim] ela é insuportável, por ser a dor do “eu” e por causa do meu apego ao “eu”.

(VIII.93) Da mesma forma, apesar da dor dos outros não me atingir, por ser a dor de um “eu”, também é difícil de suportar, por causa do meu apego a um “eu”. 

Shantideva explica que, no momento, estamos baseando nosso conceito de “eu” em pedaços de corpos de outras pessoas, algo que se desenvolveu a partir do óvulo e espermatozóide de duas outras pessoas. Nosso corpo não se desenvolveu a partir de nosso próprio óvulo e espermatozóide, certo?

Basicamente, o que estamos fazendo é cuidar de algo que veio do corpo de outras pessoas, então qual é a diferença entre isso e cuidar de qualquer outro corpo que veio do corpo de outras pessoas? Qual é a diferença entre limpar nosso próprio nariz com a mão ou limpar o nariz de um bebê? Estamos dispostos a fazer os dois, se necessário. Mas será que isso seria diferente de limpar o nariz de um bêbado caído na rua? Shantideva coloca da seguinte forma:

(VIII.111) Por uma questão de familiaridade, consideramos “eu” as gotas de sêmen e sangue de outras pessoas, apesar desse “eu” não existir como uma “coisa”, 

(VIII.112) Então, por que também não considerar o corpo de outra pessoa como “eu”? Afinal, não é difícil verificar que aquilo que considero meu corpo não é “meu”.

Conforme disse Shantideva, o sofrimento deve ser eliminado, mas não por ser meu ou de outro ser. O sofrimento deve ser eliminado simplesmente porque é sofrimento e machuca. Shantideva diz que o sofrimento não tem dono. Assim como podemos cuidar do “eu” que tem como base um único corpo, também podemos cuidar do “eu” que tem como base o corpo de todos os seres.

(VIII.102) Como o sofrimento não tem dono, não existe diferença entre o sofrimento [de um ser e de outro]: se existe sofrimento, ele tem que ser eliminado. Porque impor restrições?

(VIII.94) Portanto, devo eliminar o sofrimento dos outros, porque é sofrimento, o sofrimento de um “eu”. Assim, os outros seres devem ser ajudados por mim, porque são seres senciente, parte do corpo de um “eu”.

Quando praticamos tonglen, o dar e receber, indicado no texto pela frase “trocando nossa felicidade pessoal pelo sofrimento dos outros”, recebemos o sofrimento dos outros como se fosse nosso, e doamos nossa felicidade como se estivéssemos doando felicidade a nós mesmos. Se não tivermos uma compreensão da vacuidade e do rotulamento mental de um “eu” convencional dentro do contexto desta prática, podemos ter problemas. Que tipo de problemas? O problema que vem de basearmos nossa prática no equivoco da existência um “eu” sólido, independente e estabelecido por si só. Se praticarmos dessa forma, poderemos ficar com complexo de mártir, de termos que ser aquele que tira o sofrimento do universo, como em “Salvarei a todos!”, e isso pode gerar muito medo, afinal, também pensamos “Eu não quero sentir a dor que ele sente ao morrer de câncer”. Neste caso, nosso pensamento está fixado em um “eu” muito sólido, separado de todos os outros, e certamente não vamos querer o sofrimento de alguém que está morrendo.

Mas, se compreendermos a vacuidade do “eu”, e considerarmos um “eu” convencional expandido, que tem como base todos os seres, essa troca do que é nosso pelo que é do outro ficaria clara e bastante razoável. Só dá medo se pensarmos no “eu” sólido. Esse é um ponto muito importante da prática de nos igualarmos e trocarmos de posição com o outro.

Porque pensar em todos os seres e em sua felicidade ao invés de pensarmos em nós e na nossa felicidade? Togme Zangpo diz que é porque nosso sofrimento, sem excessão, vem de desejarmos nossa própria felicidade. Quando agimos de forma destrutiva, o fazemos porque queremos nossa própria felicidade. Por exemplo, podemos pensar: “Não gosto desse besouro voando perto de mim. Tenho medo e quero ser feliz sem sua presença. Ele é uma forma  inaceitável de vida”. E, assim, decidimos matá-lo, tendo como base o pensamento egoísta de preocupação com nosso próprio bem estar. Outro exemplo de preocupação exclusiva com a própria felicidade é roubar por querer o que o outro tem, ou mentir por querer que as coisas fossem conforme as imaginamos, ou ter um caso com o parceiro alheio porque estamos preocupados com a própria felicidade. Podemos analisar assim cada uma das dez ações destrutivas. Não é muito difícil perceber que elas surgem da nossa preocupação com a própria felicidade e por não nos importarmos com a felicidade dos outros.

Mesmo quando agimos construtivamente, se o fizermos pensando na própria felicidade, essa ação só servirá para perpetuar nosso samsara. Por exemplo, posso ser gentil porque quero que gostem de mim ou porque quero me sentir necessário ou qualquer outra coisa do gênero. Isso também é pensar apenas na nossa própria felicidade. Na terminologia budista, dizemos que é uma “atitude auto-centrada”

O texto explica que um buda totalmente iluminado nasce da atitude de desejar o bem-estar alheio. Se nos abstermos de ações destrutivas, como a ação de matar o besouro, por exemplo, estaremos pensando na felicidade desse outro ser. Se nos abstermos de roubar um objeto, estaremos pensando na felicidade do dono do objeto. E podemos analisar dessa maneira todas as dez ações construtivas. Todas tem como base o pensamento centrado na felicidade alheia e, assim, progrediremos até desenvolvermos bodhichitta. E como alguém se torna um buda? Por ter bodhichitta. Bodhichitta tem como base a preocupação com os demais.

Revisando rapidamente os dois métodos para gerar bodhichitta: temos o sistema de causa e efeito de sete partes,  que tem como base considerarmos todos os seres como nossas mães e temos o de nos igualar e trocar de lugar com os outros. Uma vez que tenhamos desenvolvido bodhichitta com base nesses dois métodos, teremos desenvolvido o estado de aspiração de bodhichitta. Aspiramos alcançar a iluminação para beneficiar todos os seres, e por isso tomamos os votos de bodhisattva e nos engajamos no tipo de comportamento que nos levará à iluminação.

Trecho livremente traduzido e editado. Original em studybuddhism.com/en/tibetan-buddhism/mind-training/commentaries-on-lojong-texts/commentary-on-37-bodhisattva-practices-dr-berzin/bodhichitta-and-bodhisattva-behavior

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