A Ética Bíblica e a Ética Budista

 

Neste texto Alexander Berzin aborda a questão do “dever”. A ética ocidental está muito baseada no “devo” ou “não devo”, mas a ética budista tem uma abordagem completamente diferente. Abordar a ética budista com nossos condicionamentos mentais judaico cristãos pode nos levar a várias armadilhas.

Ética Bíblica

A ética bíblica é um sistema que está baseado em uma autoridade superior que estabeleceu determinadas regras e leis. Nesse sistema, a ética consiste basicamente em obediência. Uma pessoa ética é uma pessoa obediente, que obedece as regras superiores. Se obedecermos as regras, é porque somos bons e se as desobedecermos é porque somos maus e seremos castigados.

Essa autoridade superior reage emocionalmente a nós, se a obedecermos ela vai gostar de nós e nos recompensar. Se a desobedecermos, ela não vai gostar, vai deixar de nos amar e vai nos castigar. Essa é a qualidade emocional desse tipo de ética.

Podemos aplicar isso a Deus ou aos nossos pais. Projetamos esse mesmo tipo de ética nos nossos pais, que estão sempre nos dizendo “seja uma boa menina; seja um bom menino; não seja malvado”. Se desobedecermos, é porque somos malvados e eles não nos amarão, por isso queremos agradá-los. A nossa conduta ética é baseada em querer agradar a  autoridade superior que estabeleceu as regras.

Assim, para a maioria de nós, que cresceu em culturas que seguem a Bíblia, a ética está baseada no “devo” ou “não devo”.  Queremos saber o que devemos fazer, para que gostem de nós, que sejamos recompensados, e que as coisas corram bem pra gente. Em um certo nível, o que estou explicando talvez seja um pouco simplista demais, mas é incrível o quanto agimos dessa maneira. Quando nos vemos em uma situação nova, queremos saber o que devemos fazer. Queremos que alguém nos diga quais são as regras. Sabendo quais são as regras, sabemos a que obedecer e nos sentimos bem e confortáveis. Então, tudo estará em ordem e sentiremos que estamos no controle.

Quando conhecemos todas as leis e sabemos que precisamos segui-las, sentimos que, se realmente seguirmos, estaremos “no controle” da situação. Sentimos que sabemos o que vai acontecer. Por isso, estarmos a par de todas as regras nos faz sentir um pouco mais seguros. Quando abordamos a vida com a atitude de querer estar no controle, com a atitude de obediência às regras e de que tudo deve estar em ordem, então, em certo sentido, estamos baseando a nossa conduta na emoção de querermos ser bons e de querermos agradar.

Esse tipo de abordagem está muito baseado no conceito de um “eu” sólido e de um “você” sólido, que estabelece as regras. Deste modo, estamos sempre preocupados com este “eu” que pode ser rejeitado ou abandonado – expulso do Jardim do Éden – se for mau. Por causa dessa preocupação com o “eu” sólido, surge o medo e todas as questões relacionadas ao controle – essa preocupação em estar no controle. Achamos que a única alternativa é o caos absoluto, e isso é semelhante ao medo de que, se derrubarmos nossas barreiras (de proteção emocional), será o caos e não teremos defesa alguma.

Tendemos, como um forte legado da cultura ocidental, a ter esse tipo de atitude em relação à ética, baseada no “devo” ou “não devo” e em cumprir as regras.Se temos essa atitude, tendemos a ver, e abordar, os ensinamentos budistas da mesma maneira. Vemos a ética budista em termos de regras sobre o que eu “devo” e “não devo” fazer: “Não devo matar insetos. Devo fazer a minha prática diária de recitação. Se não, sou mau e os meus gurus vão deixar de me amar. Não vão gostar do que fiz e não vão me amar”.

Alguém mencionou, durante o intervalo para o almoço, que às vezes é muito difícil seguir os ensinamentos que o guru nos dá. Mas queremos ser um bom discípulo; queremos ser apreciados e agradar o nosso professor. Assim, em vez de seguirmos o que ele nos ensina, adotamos uma espécie de mentalidade de culto com esse professor, baseada no pensamento: “o meu professor é melhor do que qualquer outro”. Achamos, talvez inconscientemente, que isso irá agradá-lo. Em vez de sermos leais pondo seus ensinamentos em prática, achamos que ser leal significa adorá-lo.  Assim, sobrepomos a ideia de “devo” e “não devo” à da adoração ao professor, como num culto. Fazemos isso porque é muito difícil seguir o dharma que o professor está nos ensinando.

Ética Budista

A ética ocidental é, na verdade, uma combinação da abordagem bíblica e da abordagem da Grécia Antiga. Na versão grega, em vez das leis serem dadas por uma autoridade superior que está no céu, elas são feitas por uma legislatura de cidadãos. Os cidadãos reúnem-se e fazem as leis para o bem da sociedade. Então, uma vez mais, é uma questão de “obedeça e tudo ficará bem; desobedeça e irá para a cadeia, e será punido como um mau cidadão da sociedade”.

É interessante como a sociedade ocidental combina a ética bíblica e a civil, mas nenhuma delas é relevante à ética budista. Na ética budista, o objetivo principal não é descobrir quais são as leis e simplesmente obedecê-las. Essa não é a orientação. O Buda não disse o que “devemos” ou “não devemos” fazer. O Buda disse, “se você agir deste modo, surgirá este resultado. Se você agir daquela forma, o resultado será aquele”. Ou seja, cabe a nós decidir o que queremos fazer. A escolha do que fazer é nossa. Se continuarmos a bater com a cabeça na parede, vamos nos machucar. Se deixarmos de bater com a cabeça na parede, seremos mais felizes. Ele não disse: “você deve parar de bater com sua cabeça na parede”. Disse apenas o que acontece quando você bate a cabeça na parede e quando você não bate a cabeça na parede.

Portanto, a responsabilidade é nossa, como indivíduos, de discernir e fazer essa escolha. Se quisermos deixar de sofrer e de criar problemas para nós mesmos, modificaremos o nosso comportamento desta ou daquela maneira. Se não nos importarmos… bem, isso é conosco. Não mudamos. Não é uma questão de bem ou mal. É apenas: “Se você quer continuar a sofrer, a escolha é sua – é sua prerrogativa. Mas se quiser deixar de sofrer, precisa modificar o seu comportamento”. Isso não nega a necessidade de termos determinadas leis em uma sociedade. Ainda temos de pôr criminosos na prisão para que não continuem a matar pessoas. A ética budista não contradiz isso.

No que diz respeito ao nosso desenvolvimento pessoal, crescemos à medida que desenvolvemos a chamada “consciência discriminativa” ou “sabedoria.” Precisamos discernir entre o que é benéfico e o que é prejudicial, para nós e para os outros. Mas é mais difícil saber o que prejudica os outros do que o que nos prejudica, por isso a ênfase está em evitar o que nos prejudica. Por exemplo, podemos dar uma rosa a uma pessoa com a intenção de fazê-la feliz, mas, ao invés disso, desencadeamos nela uma crise alérgica. É muito difícil saber o que realmente vai ajudar a outra pessoa. Assim, a ênfase aqui está em discernir entre o que é prejudicial e o que é benéfico para nós – isso é mais fácil de discernir. Não é uma questão de “eu devo fazer isto e não devo fazer aquilo”. No entanto, abordamos os nossos professores em termos de “me diz o que devo fazer. Como devo praticar? O que devo fazer?” Isso não ajuda.

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