Relacionamento Professor-Aluno

Relacionamentos Pessoais mas Impessoais 

Podemos falar sobre muitas coisas a respeito do relacionamento espiritual entre professor e aluno, mas uma questão que sempre aflora no ocidente é que queremos uma atenção pessoal. Temos um sentido muito forte de individualidade. Todos pensamos: “eu sou especial e deveria receber uma atenção especial”. O modelo, naturalmente, é o de irmos a um psicólogo, pagarmos com o nosso dinheiro e recebermos um tratamento individualizado. Bem, isso nem sempre está disponível num contexto budista. É engraçado. Procuramos o “meu professor que será especial para mim” e temos uma imagem tipo Hollywood de como esse relacionamento será. Não queremos que seja como o de Milarepa e Marpa: não queremos um professor que nos faça trabalhar demasiado.

Por exemplo, o relacionamento de Serkong Rinpoche comigo: eu tive o grande e incrível privilégio de ter sido próximo a ele, e de o ter servido durante cerca de nove anos, como seu discípulo pessoal e seu intérprete, secretário de inglês, organizador das suas viagens internacionais, etc. Tive este tipo de relacionamento com ele até à sua morte, em 1983. No entanto, todo esse relacionamento foi “um relacionamento pessoal mas impessoal”. Ele nunca, nunca me fez uma pergunta sobre a minha vida pessoal – nunca. Nunca me perguntou sobre minha família ou sobre qualquer outra coisa assim. E eu nunca senti a necessidade de lhe falar da minha vida pessoal. Porém, tivemos um relacionamento muito íntimo em termos de lidarmos constantemente com o momento presente.

Deste modo, trabalhamos juntos mas de uma maneira muito especial, que eu chamaria “impessoalmente pessoal”, no sentido em que não éramos como dois grandes egos dizendo: “vamos trabalhar juntos – eu e você”. E não era o tipo de relacionamento pessoal do tipo vamos partilhar a nossa escova de dentes, onde eu digo tudo sobre mim e você me diz tudo sobre você. Isso seria como mostrarmos a alguém a nossa roupa íntima suja. Nesse sentido, o relacionamento era impessoal. Mas também era pessoal no sentido de que ele compreendia o meu caráter e a minha personalidade, e trabalhávamos juntos respeitando isso. Eu compreendia a sua idade e também as suas necessidades e exigências, e nesse sentido era pessoal, embora impessoal.

Penso que uma das grandes bases para o sucesso desse relacionamento foi um grande respeito mútuo, com ambas as partes trabalhando em conjunto como adultos maduros. Como adulto, não me aproximei dele de uma forma imatura, procurando aprovação ou querendo que ele se tornasse responsável pela minha vida – dando-lhe o controle. Mas isso não significa que tenha caído no outro extremo, que seria: “Eu quero ter o controle, e você não pode me dizer o que fazer”. Consultei-o sobre escolhas difíceis da minha vida, mas tomei as minhas próprias decisões não obstante o ter consultado. Em vez de ser como uma criança perguntando “o que devo fazer?” – o que nos leva de novo à questão do “dever” – eu perguntava se seria mais benéfico fazer isto ou fazer aquilo. 

Por exemplo, no final da nossa segunda turnê mundial juntos, eu perguntei-lhe: “seria melhor para mim ficar nos Estados Unidos e passar mais uns tempos com a minha família, ou seria melhor regressar à India com você e assistir ao primeiro Festival de Oração de Monlam, que Sua Santidade o Dalai Lama está conduzindo no sul da India? O que seria mais benéfico?” Eu fazia este tipo de perguntas quando não conseguia tomar eu mesmo a decisão. Rinpoche recomendou que eu fosse ao Festival de Oração, pois iria ser um acontecimento histórico muito significativo e eu segui o seu conselho. Mas ele não me dava ordens às quais eu tivesse que responder dizendo: “Sim, senhor!” Não lhe estava pedindo ordens. Ele apresentava a situação com um pouco mais de clareza e numa perspectiva mais abrangente, de modo a que eu pudesse decidir através da minha própria sabedoria. Em outras situações, quando eu tinha uma ideia do que seria melhor fazer, perguntava-lhe se via algum problema em eu fazer isso.

Isso, penso eu, é muito importante no relacionamento com um professor. Se tivermos a expectativa de que o relacionamento irá ser muito individual e muito pessoal, então, num certo sentido, estamos nos dando um pouco mais de importância do que talvez merecemos. Se estivermos exigindo essa atenção pessoal, é porque estamos nos dando muita importância. E se estivermos fazendo essa exigência, é fácil cairmos na armadilha de nos vermos como uma criança, e vermos o professor como nosso pai; ou nos vermos como um adolescente e vermos o professor como uma estrela pop. As nossas fantasias poderiam também incluir um romance com o professor.

Trecho livremente traduzido e editado. Original em Having a Spiritual Teacher

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