Porque Pensar Sobre a Morte?

O que precisamos entender antes da meditação sobre a morte é que temos uma vida humana incrível e preciosa. A consciência da morte tem como objetivo nos motivar a aproveitar a vida humana preciosa que temos no momento. Se não apreciamos a nossa vida, e o fato de termos a oportunidade de nos trabalhar, não pensaremos muito a respeito da possibilidade de perdermos a vida. A maioria das pessoas não aprecia o fato de estar viva e poder usar seu corpo e mente para fazer coisas construtivas, elas desperdiçam a vida. Para tomar consciência da morte é preciso tomar consciência da vida.

Precisamos reconhecer que temos uma vida humana preciosa e que estamos livres de situações em que não conseguiríamos aproveitar o fato de estarmos vivos. Não nascemos uma barata, que todo mundo quer pisar em cima. Não nascemos um peixinho, que é devorado por peixes maiores. Não nascemos uma mosca. Pense bem, o que poderíamos fazer ou realizar se tivéssemos nascido uma mosca? Não muito. Passaríamos a vida atraídos por fezes e lixo!

Portanto, o propósito de tomarmos consciência da morte é não ficarmos deprimidos: “Que horror! Definitivamente eu vou morrer!” A questão não é essa. A função da consciência da morte é nos fazer aproveitar o precioso tempo que temos agora, porque realmente não sabemos quando ele vai acabar. Como no caso do meu amigo, na semana passada, que era perfeitamente saudável e nem era particularmente velho. Ele não fumava ou bebia, não tinha pressão alta, exercitava-se bastante, meditava e praticava budismo intensamente. No entanto, em uma manhã da semana passada, foi tomar um banho, teve um infarto e morreu. Assim.

Não temos como saber quando perderemos esta vida humana preciosa, e a morte geralmente chega quando menos esperamos. Você não precisa ser velho e nem doente para morrer. Então, o principal objetivo de estarmos conscientes da morte é superar a preguiça e a procrastinação, o hábito de deixar tudo para amanhã. Meu amigo Alan, que morreu, é um bom exemplo disso. Sua mãe estava muito velha e não muito saudável, e ele realmente queria ajudá-la, fisicamente e financeiramente. Então, todos os finais de semana ele ajudava a cuidar dela – fazia compras e coisas do gênero. Ele sempre disse que assim que ela morresse iria parar de trabalhar, e a primeira coisa que faria seria um retiro de Vajrasattva de um ano, para purificação, e depois alguns retiros mais longos. Essa era a sua intenção.

Conforme disse, ele praticava intensamente, mas nunca fez um retiro de meditação porque queria estar disponível para ajudar a mãe, então tinha que trabalhar. Será que ele deveria ter continuado trabalhando para ajudar a mãe ou ter feito retiro enquanto tinha a oportunidade, e deixado outra pessoa cuidando dela? Qual seria a orientação do dharma? O que os ensinamentos sobre a morte nos aconselhariam a fazer? É bom pensar no que faríamos em uma situação dessas.

Uma ideia seria fazer retiros mais curtos e ajudar a mãe ao mesmo tempo. Retiros não precisam necessariamente ser uma atividade em tempo integral – podemos fazer uma sessão de manhã e outra à noite, e cuidar do que for necessário durante o dia. É bom fazer retiros, mas os ensinamentos sempre dizem que é importante retribuir a gentileza de todos os seres, especialmente de nossa mãe, que nos deu a vida. Quando você cuida de seus pais, especialmente quando é sem ressentimentos, do tipo “queria que morressem logo, porque odeio meu trabalho e queria me aposentar”, gera uma enorme quantidade de potencial positivo. Mas, se não precisarmos nos preocupar com nossos pais, então, é claro, precisamos aproveitar nossa vida o máximo possível.

Geralmente, os Lamas tibetanos não levam os estudantes de dharma ocidentais muito a sério, pois muitos de nós não apreciamos e nem temos a dedicação e o comprometimento com o dharma que muitos tibetanos têm. Os ocidentais, em geral, têm uma atitude mais relaxada, pensam: “hoje estou cansado, vou a esses ensinamentos da próxima vez”. Se realmente levássemos a sério e tivéssemos consciência da morte e da vida humana preciosa, iríamos escutar ensinamentos sempre que estivessem disponíveis, independente de como estivéssemos nos sentindo.

A Morte se Aproxima: Relaxe!

Nossa vida preciosa vai acabar, mas não sabemos quando. Podemos ter um infarto e morrer no chuveiro ou podemos ser atropelados por um ônibus. Não queremos desperdiçar nossa vida. A consciência da morte nos ajuda a superar a preguiça e aproveitar ao máximo as oportunidades que temos. Mas é importante não nos estressarmos e não ficarmos tensos. Geralmente ficamos tão tensos e estressados com coisas triviais, sem importância, que também nos estressamos com o dharma. Precisamos ser sinceros em nossa prática, mas de uma forma relaxada – o que não significa que podemos ser preguiçosos. Se você cultivar hábitos positivos, não terá problemas na hora da morte, pois saberá que esses hábitos lhe ajudarão.

A Morte é a Conclusão Lógica da Vida

Então, usando a razão, discernimos se os ensinamentos são consistentes com o que o Buda ensinou.  Para isso, normalmente precisamos ter recebido muitos ensinamentos ou lido muitos livros budistas. Muitos ensinamentos budistas falam da impermanência, então isso é consistente com o que o Buda ensinou.

Tem lógica? Bom, sim, a cada dia estamos mais próximos da morte. Em algum momento o show terminará. A morte certamente chegará, porque não há nada que possa evitá-la. Nosso tempo de vida não pode ser prolongado, o tempo de vida que nos resta diminui a cada dia, minuto a minuto, segundo a segundo. Conseguir realmente assimilar esse fato, emocionalmente, é muito profundo. Isto se conseguirmos fazê-lo de forma que não surtemos, de uma forma relaxada, mas com seriedade. Mesmo que não tenhamos tempo para praticar o dharma enquanto vivos, iremos morrer. Todo mundo que já viveu, morreu.

Os Benefícios

E quanto ao resultado disso? Bom, se realmente nos convencermos de que a morte está chegando e que temos uma vida humana preciosa, o resultado é que teremos menos preguiça e aproveitaremos todas as oportunidades que tivermos. Através de nossa própria experiência poderemos ver que isso nos beneficia.

A natureza de tudo o que vive é morrer. Assim são as coisas, assim é a realidade, e não há nada que possamos fazer, a não ser aceitar esse fato.

É fácil nos convencermos intelectualmente, mas muito difícil nos convencermos emocionalmente. A mente e o corpo também são diferentes – por exemplo, em relação à morte de meu amigo, sinto-me bastante em paz mentalmente e emocionalmente, mas meu corpo sente-se energeticamente exaurido.

Existe tristeza no nível físico porque é difícil assimilar esse sentimento de “todo mundo morre” no nível do corpo. E a tristeza surgirá no nível mental de tempos em tempos, porque é natural. Não somos budas; não somos seres liberados. Ainda não estamos livres de todas as emoções perturbadoras e sofrimento. Mas essa é a nossa meta.

Quando meditamos sobre a morte e realmente chegamos a uma compreensão de que todos vamos morrer e não sabemos quando, somos impelidos a fazer o que realmente importa. A consciência da morte gera uma mudança incrível, torna-se impossível sucumbir à preguiça e à depressão.

Texto traduzido e livremente editado do original Four Axioms for Thinking about Death and Impermanence

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