O que é o Amor do Ponto de Vista Budista

Quando falamos sobre o amor de um ponto de vista budista, estamos falando da aspiração de que o outro seja feliz e possua as causas da felicidade. Isso significa aceitar o outro totalmente, tanto seus pontos fortes quanto seus pontos fracos. O meu desejo de que ele seja feliz não depende de como ele me trata ou como se comporta. Desejo incondicionalmente que ele seja feliz, mesmo que isso signifique que tenho que lhe fazer concessões.

Muitas vezes o amor está mesclado ao desejo (desejo é quando não temos algo e queremos ter). Pode também ter apego (ou seja, mesmo quando temos algo, não queremos soltar o que temos) e cobiça (mesmo se alguém que amamos é nosso amigo, esperamos cada vez mais dessa pessoa). Tudo isso tem como base olhar apenas para as boas qualidades da coisa ou da pessoa e exagerá-las, ignorando suas possíveis falhas. Talvez as boas qualidades da pessoa em questão se resumam ao fato de que ela gosta de mim, que me sinto bem quando estou com ela, que tem boa aparência, é sexy ou algo assim. Olhamos para uma parte ínfima da pessoa e lhe damos mais importância que todo o resto. Isso não é uma atitude muito realista. Depende muito de como a pessoa nos trata: se ela nos trata bem, a amamos; se não nos trata bem, não a amamos mais. Esse tipo de amor não é um amor estável.

Como eu disse, o tipo de amor estável – do qual falamos no budismo – é aquele no qual reconhecemos os lados positivos e negativos da pessoa, pois todo mundo tem pontos fortes e fracos; ninguém é ideal nem perfeito. O problema é que muitos de nós ainda acreditam em contos de fada. No conto de fadas há o Príncipe Encantado, ou a Princesa Encantada, que chegará montado no cavalo branco e será absolutamente perfeito. Estamos sempre procurando pelo príncipe ou a princesa e os projetamos nas várias pessoas por quem nos apaixonamos. Infelizmente, trata-se apenas de um conto de fadas, como o Papai Noel, que não tem nada a ver com a realidade.

Não é agradável perceber isso; é muito duro de aceitar. Nunca desistimos: “Este não era o príncipe, mas talvez o próximo seja.” Enquanto continuarmos projetando e procurando pelo príncipe ou pela princesa no cavalo branco, os nossos relacionamentos terão problemas, porque ninguém conseguirá ser aquele ideal de parceiro perfeito para nós. Ficamos com raiva quando não agem como um príncipe ou uma princesa. Isso quer dizer que não aceitamos a realidade que o outro é um ser humano como eu e tem pontos fortes e pontos fracos. O amor verdadeiro e estável é baseado na aceitação da realidade do outro.

Outro aspecto da realidade da pessoa por quem nos apaixonamos, do qual muitas vezes nos esquecemos, é que não somos a única coisa importante na vida dela. Muitas vezes, não damos atenção ao fato de que ela tem uma vida que vai além de nossa relação – tem outros amigos, uma família, outras responsabilidades. Portanto, é despropositado ter ciúmes e ficar chateado quando ela passa seu tempo com outras pessoas ou outras coisas. Quando ela está de mau humor, por exemplo, ou não tem vontade de me encontrar. Não é porque não gosta de mim. Não sou a causa de tudo o que essa pessoa sente e faz. Se ela está de mau humor, pode ser por causa da família, por causa de seus amigos, por motivos de doença ou por não estar se sentindo muito bem; há tantas coisas que podem afetar uma pessoa. Por que tenho que pensar que sou a única causa de todos os sentimentos dessa pessoa?

Da mesma forma, se tivermos um relacionamento muito longo, ocorrerão muitas coisas em nossa interação diária. Muitas vezes acontece do outro não nos ligar ou não ler nossa mensagem. Mas então exageramos a importância do que aconteceu e não buscamos entender dentro do contexto do relacionamento e do tempo que passamos juntos. Por causa desse incidente, concluímos que a pessoa não nos ama mais. Trata-se de uma visão muito míope – ou seja, olhamos para pequenos detalhes isolados e não para o relacionamento como um todo.

A realidade é que os humores e os acontecimentos da vida de todo mundo têm altos e baixos. Essa verdade se aplica a nós e a todos os outros. Portanto, é natural que às vezes a pessoa por quem nos apaixonamos não tenha vontade de estar conosco. Às vezes ela está de bom humor, às vezes de mau humor. Se estiver de mau humor – ou ocupada demais com outras coisas e não puder responder as nossas mensagens ou demandas imediatamente – isso não quer dizer automaticamente que não nos ama mais; esses momentos fazem simplesmente parte da vida.

Essas são coisas muito importantes que devemos aprender e entender se quisermos que nossos relacionamentos amorosos sejam estáveis; caso contrário, teremos muitas turbulências emocionais.

Há um ótimo exemplo que foi dado por um grande mestre indiano, que diz que nossos relacionamentos são como as folhas sopradas pelos ventos, desprendendo-se das árvores durante o outono. Às vezes as folhas se desprenderão e voarão juntas, às vezes o farão separadas. A vida é simplesmente assim. Qualquer relacionamento pode, ou não, durar uma vida inteira.

É importante tentar olha para o outro como olhamos para um pássaro selvagem que se aproxima de nossa janela. Um pássaro lindo pousa em nossa janela, como ele é lindo! Como estou feliz por tê-lo aqui comigo, mas é claro que ele vai embora; afinal, o pássaro é livre. Se ele voltar à minha janela, que maravilha, que sorte a minha! Mas se eu tentar capturá-lo e colocá-lo em uma gaiola, ele será muito infeliz e pode até ser que acabe morrendo.

O mesmo se aplica à pessoa que amamos. Trata-se de um lindo pássaro selvagem que entra em nossa vida trazendo muita alegria e beleza. Mas é uma pessoa livre, como o pássaro selvagem. Se tentarmos prendê-la, como se ela nos pertencesse, se reclamarmos constantemente dela – “Por que você não me liga? Por que não vem me ver?” Por que não passa mais tempo comigo?”- é como tentar colocar o pássaro em uma gaiola. O pássaro selvagem tentará escapar sempre que possível. Se ele permanecer conosco, ou se essa pessoa ficar conosco porque tem um sentimento de culpa, ambos seremos muito infelizes.

É um pensamento muito útil, ver cada pessoa por quem nos apaixonamos, que entra em nossa vida, como se fosse um belo pássaro selvagem. Quanto mais relaxados formos e menos apego tivermos, mais o pássaro gostará de vir até nossa janela.

Trecho livremente traduzido e editado do original The Importance of Love, Compassion and Bodhichitta

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