Como Assim, “Eu Não Existo?”

Distinguindo o “Eu” Falso do “Eu” Convencional

Como praticante do tantra, distinguimos entre o que chamamos de falso “eu” e o “eu” convencional. Basicamente, nós existimos (o “eu” convencional), mas não existimos como um falso “eu”. O falso “eu” é pura fantasia e não corresponde a nada que seja real.

Convencionalmente, o “eu” está sempre mudando, e é imputado em um contínuo individual e ininterrupto de aparências que surgem – aparências de objetos, sentimentos, emoções e pensamentos e aparências de fazer, dizer e pensar coisas.  Ele é imputado tanto no surgimento quanto na experiência subjetiva dessas aparências, e também nas próprias aparências. Isso tudo é inseparável. Para simplificar, podemos falar do “eu” convencional como algo imputado em um contínuo individual de aparências de corpo, fala e mente.

Mas o que significa “algo imputado”? Considere o exemplo do movimento. Movimento é algo imputado na dependência de haver um objeto cuja localização está em um contínuo individual de posições sequenciais. Todos podemos ver o movimento de um objeto que se move, mas não é possível encontrar esse movimento como uma “coisa” concreta dentro do objeto, qualquer que seja a posição do objeto. No entanto, isso não significa que o movimento não existe. Convencionalmente, existe movimento, mas simplesmente não conseguimos identificar o movimento do objeto em um único momento, afinal, para se ter movimento, são necessários vários momentos.

Similarmente, o “eu” é algo imputado na dependência de haver um contínuo individual de aparências de um corpo, fala e mente que estão em constante mudança durante toda uma vida – e durante todas as vidas passadas e futuras também. Apesar de ser imputado na dependência de tal contínuo, não é possível encontrar-se o “eu” como “algo” concreto dentro de um momento de aparecimento de um corpo, fala ou mente. Assim como no caso do movimento, existe, convencionalmente, um “eu”; só que não conseguimos apontar para ele. Ele não está em nenhuma célula do corpo, em nenhuma ação do corpo, não está no som de nenhuma palavra da fala ou em algum pensamento, emoção, compreensão ou qualquer outro lugar. E mesmo assim, se nos perguntarem: “Quem está aparecendo?” Teremos que responder: “Sou eu!” Não é outra pessoa e também não é ninguém. Esse é o “eu” convencional.

Agora uma questão mais profunda: o que estabelece a existência de algo convencional que chamamos de movimento ou de “eu”? Em outras palavras, o que explica o fato de todos poderem ver tanto o movimento como o eu? Não há nada encontrável dentro de um momento de um objeto localizado em diferentes lugares consecutivamente ou dentro de um momento de um contínuo individual de aparências de corpo, fala e mente.

Tudo o que podemos dizer é que existe o conceito de “movimento”, com a palavra “movimento” sendo usada para designá-lo, e que esse conceito serve para rotular um objeto que está em diferentes localizações em momentos sequenciais. Portanto, convencionalmente, o movimento é apenas aquilo a que o conceito ou palavra se refere, tendo como base um objeto que está em diferentes lugares consecutivas. Entretanto, novamente, ainda não conseguimos achar esse “movimento” convencionalmente existente. Mas isso não invalida sua existência convencional ou nossa percepção (válida) dele.

Da mesma forma, tudo o que podemos dizer é que existe o conceito de um “eu”, com a palavra “eu” sendo usada para designá-lo, e que esse conceito serve para rotular um contínuo de aparências sem começo e sem fim de um corpo, fala e mente, e também a experiência subjetiva dessas aparências. Convencionalmente, o “eu” é aquilo a que esse conceito ou palavra se refere, que tem como base o contínuo individual. E, novamente, mesmo assim não conseguimos achar esse “eu” convencionalmente existente. Mas isso não invalida sua existência convencional ou nossa percepção dele.

Resumindo, quer estejamos analisando no nível relativo ou no nível absoluto, nunca conseguiremos encontrar ou identificar esse “eu” convencional. Não obstante, quando não estamos analisando-o: “Aqui estou eu. Estou sentado aqui. Estou falando com você.” Não é nenhum dos dois extremos: não é que não haja alguém falando com você, e também não é que haja um falso “eu” sólido sentado em algum lugar dentro da minha cabeça e falando com você.

Trecho livremente traduzido e editado do original Buddhist Deity or Mickey Mouse

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