Como ter um Ego Saudável

O “Eu” na Psicologia Ocidental

Na psicologia, falamos de um ego saudável e de um ego inflado, e acho que todos concordam que ter um ego saudável é muito importante para conseguir lidar com as dificuldades e a realidade do cotidiano. Ter um ego saudável significa ter uma visão positiva de si (e consequentemente dos outros), autoconfiança e habilidade em lidar com o que quer que aconteça. Um ego inflado e doentio significa que achamos que somos mais importantes que os outros, que estamos sempre certos e que as coisas deveriam ser sempre como queremos.  Isso naturalmente gera problemas e conflitos, pois esse sentido de “eu” não é baseado em uma visão realista. E existem também outras atitudes doentias, no que diz respeito ao “eu”, que não se encaixam na categoria de “ego inflado”, como ter uma autoimagem muito negativa, por exemplo, que pode nos trazer muitíssimos problemas.

O “Eu” no Budismo

O budismo fala muito do “eu”, mas normalmente não usamos a palavra ego, pois é um termo definido de forma bastante específica por diversos sistemas filosóficos e psicológicos, e essas definições não correspondem à ideia budista de “eu”.

O budismo fala do “eu” convencional e do “eu” falso. Quando temos um ego saudável, o budismo diz que pensamos em termos de um “eu” convencional. Quando temos um ego inflado ou baixa autoestima, estamos pensando no falso “eu”.

No budismo, para compreender o “eu”, desconstruímos cada um dos momentos de nossa experiência, que são constituídos por muitos componentes:

  • A experiência sensorial – a todo momento estamos vendo imagens, ouvindo sons, sentindo sensações físicas e assim por diante.
  • Os fatores mentais básicos – sempre temos algum nível de atenção, concentração, interesse, cansaço e assim por diante.
  • As emoções – cada momento é acompanhado de diversas emoções, que podem ser positivas, como amor, paciência e compaixão, ou negativas, como raiva, ganância e inveja.
  • Os sentimentos – temos sempre algum nível de felicidade ou infelicidade presente. Pode não ser muito forte, mas está sempre lá.
  • Compulsividade – muitos de nós vivenciam uma certa compulsão em agir ou falar de determinada maneira. Apesar de parecer que estamos controlando isso conscientemente, geralmente é condicionado por nossos hábitos, criação, meio-ambiente e assim por diante.

Cada um desses componentes está mudando em um ritmo diferente, o tempo todo, e é disso que nossa experiência subjetiva é constituída, momento a momento. Esse contínuo ocorre desde quando nascemos e vai até morrermos.

Mas, como será que vivenciamos isso? Cada um de nós vivencia isso em termos de um “eu”.  Imputamos um “eu” nessa base que está sempre mudando. É interessante analisarmos isso. Será que existe alguma coisa nesse “eu” que permanece sempre igual? Você olha uma fotografia sua de quando era bebê e diz: “Sou eu”. Olha uma fotografia de quando era adolescente e diz: “Sou eu”. Olha uma fotografia de quando adulto e “essa também sou eu”. O que será que estamos reconhecendo nesse “eu”? Não há nada sólido no “eu” que estamos identificando em cada uma das fotos. Todavia, ainda assim sou eu, e não você.  Portanto, imputamos esse “eu” em um longo contínuo de momentos de experiência, toda uma vida, assim como imputamos “ano” na continuidade de 365 dias.

Se mantivermos a fluidez de cada momento, “Agora estou fazendo isso. Agora estou fazendo aquilo. Agora estou experimentando isso. Agora estou experimentando aquilo”, podemos chamar isso de “eu” convencional. Com base nesse “eu” convencional, podemos desenvolver um “eu” saudável. O problema é quando temos a ideia fixa de um “eu” sólido, e nos identificamos com uma única cena em uma longa sequência de experiências de toda uma vida. É como pausar o filme de uma vida inteira e identificar-se com uma única cena, ou com poucas cenas, e a cena mudar apenas de vez em quando.

Em uma linguagem mais corriqueira, poderíamos dizer que estamos nos fixando em uma certa identidade de quem achamos que somos. Pode ser que nos identifiquemos com “sou um jovem com um corpo forte e atraente”, mas nossa experiência ser muito diferente, então ficamos insatisfeitos. Olhamos no espelho ou nos pesamos e pensamos: “Esse não sou eu. Não é possível que eu seja tão pesado”. Também podemos nos identificar com nossa inteligência, dinheiro, ocupação e assim por diante.

Um bom exemplo é quando estamos em um relacionamento. Quando estamos em um relacionamento, normalmente baseamos nossa identidade em ser uma parte desse casal. Essa é uma cena no filme de nossa vida. E aí a outra pessoa termina conosco e sofremos tremendamente, porque ainda estamos nos identificando como uma parte daquele casal, mesmo não sendo mais. A única forma de superarmos isso é tendo muitas experiências após o término, para que tenhamos algo novo onde imputar o “eu”: “Agora sou essa pessoa”.  Até que tenhamos uma certa quantidade de experiências pós-relacionamento, para que possamos pensar nelas como “eu” ou “minha vida”, continuaremos presos à ideia de sermos parte de um casal.

Esse método de expandir a base sobre a qual imputamos o “eu”, não só nos ajuda, mas também ajuda os outros. Quando temos um amigo próximo ou um amante, tendemos a pensar que somos a única pessoa em sua vida e que ele ou ela devem estar sempre disponíveis para nós, perdemos a noção de que ele tem outros amigos e outras coisas acontecendo em sua vida. Quando ele não liga, imediatamente concluímos que não nos ama, não percebemos que pode ser que haja outras coisas acontecendo em sua vida. Temos que expandir a base sobre a qual imputamos o outro, não o imputando apenas em seu relacionamento conosco ou no incidente de não ligar, mas incluindo tudo e todos em sua vida.

Podemos até usar de uma análise lógica budista para nos ajudar nessa situação. Quais poderiam ser as possíveis variações e derivações destas duas sentenças: “meu amigo não me liga” e “meu amigo não me ama”?

  • Pode ser que meu amigo não me ligue e me ame.
  • Ou meu amigo me ligue e não me ame
  • Ou meu amigo não me ligue e não me ame
  • Ou meu amigo não me ligue e me ame

Portanto, se me amigo não me ligou, é possível que ainda me ame. Então analisamos o motivo do amigo não ter ligado. Pode ser qualquer outro motivo. Pode ser que ele esteja ocupado. Pode ser que seu telefone não esteja funcionando. Pode ser que a bateria do seu celular tenha acabado. Pode ser que haja muitas razões. Portanto, é ilógico concluir que meu amigo não me liga porque não me ama. Se meu amigo não me liga, isso não implica necessariamente que não me ama. Essa não é uma linha de raciocínio válida. Isso é lógica budista.

Desenvolvendo um “Eu” Saudável

Para desenvolvermos um ego ou um “eu” saudável, precisamos conseguir imputar “eu” no que está acontecendo no presente, e não ficar preso em memórias do passado ou visões do futuro. Esse é o princípio geral. Os termos técnicos seriam o “eu” e “a base de imputação do eu”. A base de imputação do “eu” são os momentos de nossa experiência.

Olhando para todo o contínuo de experiências de nossa vida, até o presente momento, vemos que vivenciamos e fomos influenciados por tudo o que ocorreu conosco, quer nos lembremos ou não. Isso quer dizer que fomos influenciados por todos os membros de nossa família, pelos nossos amigos, professores e todas as coisas que aprendemos. Fomos influenciados por todos os empregos que tivemos. Fomos influenciados pela mídia e pelo entretenimento que desfrutamos. Fomos influenciados por todos os lugares onde moramos e para onde viajamos. Nossa vida – a vida de todas as pessoas – é cheia de experiências e influências que afetam o que sentimos no momento, como pensamos, falamos e nos comportamos. Tudo isso exerce uma influência, pode ser que nem tudo o que esteja acontecendo em um determinado momento esteja nos influenciando, mas nossas inúmeras experiências somam-se para moldar quem somos.

Uma grande fonte de problemas é nossa falta de consciência das influências que afetam a forma como pensamos, falamos e nos comportamos. Além disso, quando nos identificamos muito fortemente com uma determinada influência, excluímos as outras. E também existem influências inconscientes, que não percebemos, e outras que ativamente negamos.

Todo o processo de integrar os vários aspectos de nossa vida tem a ver com uma abordagem mais holística, de tentar estar consciente de todas as influências que temos e integrá-las em uma imagem holística. Dessa forma, conforme temos mais experiências, a base sobre a qual imputamos o “eu” também se expande. Apesar do fato de que o que está acontecendo ser apenas um único momento, e de estarmos imputando “eu” nesse único momento, todas as influências de nossa vida estão presentes nesse momento.

Existem terapias onde procuramos identificar as influências negativas que tivemos, normalmente vindas de nossos pais. Você faz uma lista de hábitos e coisas que vieram de sua mãe e outra de seu pai, para conscientizar-se disso. O foco normalmente é nos aspectos negativos, mas algumas vezes inclui aspectos neutros, como o fato de você gostar de manter a casa limpa e arrumada e gostar de jogar as coisas fora, ou não jogar as coisas fora. Eu, por exemplo, gosto de comer a uma determinada hora. Essas coisas são neutras, certo?

Mas essas coisas neutras e negativas são apenas uma parte do todo. Também é muito importante estarmos cientes das coisas positivas que aprendemos, ou da forma positiva em que fomos influenciados por nossos pais, pelo resto da família, pelos amigos, pela escola, trabalho e assim por diante.

Existe uma tendência natural nas pessoas de querer ser leal: leal à sua família, à sua profissão, gênero, etc.  O que acontece é que somos inconscientemente leais a aspectos negativos. Assim, se nossos pais ficarem constantemente dizendo que não somos bons, pode ter certeza que agiremos mal, como que para confirmar que não somos bons. Mas ser leal a aspectos negativos não nos ajuda em nada, não é mesmo? Claro que não podemos simplesmente negar essas influências, mas também não ajuda em nada ficar apenas reclamando delas. Ao mesmo tempo que precisamos reconhecê-las, “ok, tive essas influências negativas”, não ajuda em nada culpar os pais, a escola ou a sociedade pelas influências negativas que tivemos.

Reconhecemos e tentamos entender. Mas, e depois? O ponto é não exagerar e não ficar sempre se lembrando. Reconhecemos que tivemos influências negativas e entendemos que não queremos perpetuar isso. Ao invés de perpetuar as influências negativas, tentamos enfatizar os aspectos positivos que herdamos. Assim, automaticamente teremos uma atitude bastante positiva, uma atitude de gratidão, ao invés de culpa. Se achamos que nossos pais não foram bons, bom, pais que não são bons geram que tipo de filhos? Filhos que não são bons! Mesmo que inconscientemente, provavelmente é assim que pensaremos, e isso nos leva a todo tipo de problemas, como baixa autoconfiança e baixa autoestima.

Claro que existem exceções – pessoas que conseguem estar acima dessas coisas. Mas estou falando do que acontece normalmente. Se tentarmos ter uma atitude mais positiva em relação às influências que herdamos de nossos pais, amigos, escola e sociedade, teremos uma visão mais positiva de nós mesmos, o que nos traz autoconfiança. Assim, contanto que não inflemos esse “eu” com “eu sou tão maravilhoso!”, que nos mantenhamos realistas, isso é um ego saudável, um “eu” saudável.

Trecho livremente traduzido do original Integrating the Various Aspects of Our Life

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