Características Exclusivas e Indispensáveis ao Budismo (Os 4 Selos do Dharma)

Existem características que são exclusivas do budismo, que não existem em outros sistemas e precisam ser incluídas, independentemente da cultura. Essas características são chamadas de “quatro características” ou “quatro selos do dharma”.  A descrição completa é: “quatro marcas para rotular uma perspectiva como sendo baseada em palavras de um iluminado e que levam à iluminação”. Se um conjunto de ensinamentos contiver esses quatro pontos, ele vem daquilo que o Buda ensinou. Então, o que marca um ensinamento como sendo exclusivamente budista? Não é nem o amor, nem a compaixão, nem a meditação, nem a existência de uma comunidade monástica e nem um sistema ético para não prejudicar os outros. Tudo se resume à visão da realidade, isso é que faz com que um ensinamento seja especificamente budista. Mas isso não significa que podemos esquecer todas as outras características do budismo e ficar apenas com a visão. Por isso, temos estes quatro pontos:

Todos os Fenômenos Condicionados São Impermanentes

O primeiro selo diz que todos os fenômenos condicionados, são impermanentes, ou seja, não são estáticos. Isso significa que tudo aquilo que é afetado por causas e condições mudará continuamente. A maioria dos fenômenos, mas não todos, acabarão. Alguns continuarão para sempre, como o nosso contínuo mental, e alguns não têm nem mesmo um início, como os renascimentos; mas não-estático quer dizer que todos os fenômenos mudam constantemente à medida que são afetados por vários fatores.

O princípio da impermanência não é exclusivamente budista, apesar da maioria das pessoas nem mesmo perceber que tudo muda, de sentirem que as coisas são permanentes, que durarão para sempre e nunca mudarão. Inclusive elas mesmas. Mas quando o Buda ensinou isso, ele enfatizou que a impermanência também se aplica ao “eu” (ing. self). Temos que entender que somos afetados por causas e condições e, portanto, mudamos constantemente. Os outros sistemas indianos ensinavam que o “eu”, atman, é permanente e estático, que não é afetado por nada. “O meu corpo é afetado por causas e condições, o que faz com que ele mude, mas eu não mudo. Tenho várias experiências diferentes em minha vida, mas isso não me muda.” Como o Buda também aplicou ao “eu” sua afirmação de que todos os fenômenos afetados estão sujeitos à mudança; no que se refere a este selo, seus ensinamentos são únicos.

Alguns fenômenos afetados, como o corpo, não apenas mudam constantemente, mas também se degeneram constantemente e eventualmente acabam. O Buda ensinou que, embora o “eu” seja afetado por causas e condições e, portanto, também mude constantemente, ele não se degenera com o tempo. Assim como o contínuo mental, que também é um fenômeno não-estático afetado, o “eu” não têm início nem fim. Ele segue mudando para sempre. Esse é um ponto bastante profundo.

Todos os Fenômenos Maculados São Problemáticos

O segundo selo diz que todos os fenômenos maculados são problemáticos; todos eles estão vinculados a sofrimento. “Maculados” quer dizer que eles surgem na dependência de emoções perturbadoras e do karma, que, por sua vez, nos levam ao renascimento samsárico. O Buda explicou isso minuciosamente em seu ensinamento sobre os 12 elos de originação interdependente. Ele ensinou que todas as nossas experiências, tudo aquilo que nos acontece, acontece por causa de nossa ignorância, que motiva o comportamento kármico compulsivo. Esse comportamento é a causa dos renascimentos samsáricos, da infelicidade e da felicidade comum e insatisfatória que vivenciamos a cada vida. Essa explicação do mecanismo por detrás do funcionamento do renascimento samsárico é exclusivamente budista, e o Buda ensinou que isso é problemático, que tudo isso é sofrimento.

Todos os Fenômenos São Desprovidos de um “Eu”

O terceiro selo é que todos os fenômenos são desprovidos, não possuem, um “eu” impossível. O tipo de alma ou atman ensinado por outros sistemas indianos não tem como existir. Aqui estão todos os ensinamentos sobre vacuidade, quer estejamos falando da vacuidade do “eu”, ou seja, da pessoa, ou da vacuidade de todos os fenômenos. Embora tenha surgido diferentes sistemas filosóficos budistas oferecendo diferentes níveis de entendimento daquilo que o Buda ensinava como sendo uma maneira impossível de existir, a afirmação da vacuidade é totalmente essencial à perspectiva budista.

Vacuidade significa a total ausência de maneiras impossíveis de existir. As coisas aparentam existir de formas impossíveis, mas elas não correspondem a nada que seja real. São impossíveis. Alguns outros sistemas indianos diziam que tudo é uma ilusão e que você precisa ver que tudo é uma ilusão para alcançar a libertação. Mas, o que eles afirmaram como realidade, o Buda demonstrou que também era uma ilusão – por exemplo, que o “eu”, quando libertado, existe independentemente de tudo, ou existe sendo uno com o universo ou uno com Brahma.

Nirvana é Paz

O quarto selo diz que o nirvana, referindo-se à libertação do renascimento samsárico, é uma pacificação. Este ponto basicamente se refere à terceira nobre verdade, que diz que o nirvana, atingido através do entendimento dos três primeiros selos, é a verdadeira cessação eterna de todas as causas do sofrimento – a falta de consciência, as emoções perturbadoras, o karma, e o próprio sofrimento, ou seja, o renascimento samsárico. Este tipo de nirvana, ou libertação, é algo construtivo, e traz felicidade. Isso implica no fato de que a libertação é possível.

Podemos ver que as quatro nobres verdades são uma outra forma de apresentar esses quatro selos ou marcas do dharma. Embora possamos pensar nesses quatro pontos apenas no que se refere a esta vida, será que isso seria budismo?  O fato de que todas as coisas afetadas por causas e condições mudam, de que qualquer coisa gerada em meio à confusão nos trará problemas, de que não há um “eu” sólido, e de que podemos nos libertar de todos os problemas, é ótimo. Isso seria, creio eu, a versão Dharma-Light. Isso não se aprofunda o bastante no que se refere a causa e efeito e à questão daquilo de que realmente queremos nos libertar.

Esse é o problema de encaixar tudo isso apenas no contexto desta vida – toda a questão da causa e do efeito. Se pensarmos apenas nesta vida, como explicar, considerando-se causa e efeito, o primeiro momento da mente e do “eu”? Ele surge sem causa ou surge de uma causa irrelevante, como a soma de esperma e ovo dos pais que, de alguma forma, se transforma em uma mente e um “eu”? No momento da morte, a mente e o “eu”, que produziram efeitos durante toda a nossa vida, param de produzir efeitos? Teremos sérios problemas de lógica no que diz respeito à mente e ao “eu”, no que se refere aos princípios da causalidade, se não postularmos o renascimento sem início, a mente sem início nem fim, e o “eu” sem início nem fim. Mas, aqui não estamos falando de um “eu” impossível sem início nem fim, e sim do “eu” convencional que realmente existe e funciona.

 

Conclusão

O budismo tem certas características: as quatro nobres verdades, os quatro selos, e o refúgio no Buda, no dharma e na sangha, da forma como o Buda os definiu. Portanto, o budismo tem características que o definem. Será que a existência do budismo é estabelecida pelo poder dessas características apenas, de forma independente de todo o resto? Não se pode dizer isso. Segundo os ensinamentos sobre a vacuidade, isso seria impossível. A existência do dharma budista só pode ser estabelecida dentro de um contexto.

Alguns contextos são universais, não são específicos a uma cultura. Por exemplo, os elementos gerais da cultura indiana, o karma, o renascimento e a libertação, são um contexto universal necessário para estabelecer o Dharma Autêntico, e não estão presentes simplesmente pelo fato do público ao qual o Buda ensinava ser indiano. Outros pontos, como o amor, a compaixão, a paciência, a concentração e assim por diante, constituem elementos essenciais do contexto universal, não são apenas indianos.

E há outro nível de contexto, que é mais específico culturalmente. Pode ser que haja um princípio geral em comum por detrás dele, mas a forma que assume varia nas diferentes culturas. Por exemplo, fazer oferendas e demonstrar respeito pode ser feito de diferentes maneiras. O sustento da comunidade monástica pode ser conseguido de várias maneiras. O tipo de manto que os monásticos vestem, que os distinguem dos leigos e não geram apego, pode depender da cultura, e com certeza o idioma depende da cultura.

Sua Santidade o Dalai Lama disse que coisas como o Monte Meru e os quatro continentes, se não são provados pela ciência e, se estão em contradição com uma percepção válida, podem ser descartados do budismo. Assim sendo, quando fazemos a oferenda do universo na prática budista, pode ser na forma do sistema solar ou do planeta Terra. A intenção é oferecer tudo. Estamos oferecendo o universo e pensando em mais seres do que apenas os seres humanos, sendo que alguns têm mais e alguns têm menos sofrimento. Na teoria budista da percepção, que se refere ao funcionamento da mente, não há menção ao cérebro, mas ele pode ser mencionado. Não há contradição nisso.

Em suma, quando fazemos a pergunta: “Será que podemos distinguir o budismo do contexto asiático?” – vemos que trata-se de uma questão bastante complexa. Precisamos analisar o que é essencial, o que é geral, o que vem de uma cultura, como a cultura indiana, e o que é superficial e pode ser mudado de acordo com a cultura, mas isso deve seguir determinados princípios, que têm que ser honrados.

Trecho livremente traduzido e editado, do original Distinguishing Buddhism form Asian Culture 

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