Como Distinguir o Budismo da Cultura Asiática?

O que é essencial à prática do budismo, e o que é apenas uma tradição cultural? Quando removemos as várias armadilhas superficiais e culturais que se estabeleceram ao redor do budismo, a essência do dharma é revelada.

A Necessidade do Contexto Cultural  

O budismo surgiu no contexto da cultura asiática, mais especificamente. da antiga cultura indiana. Mas será que é possível ter ensinamentos budistas fora do contexto cultural indiano? Será que é possível ter ensinamentos budistas fora de qualquer contexto cultural?

É claro que, de acordo com a análise budista da vacuidade não podemos estabelecer um ensinamento budista fora de seu contexto. O próprio ensinou a diferentes pessoas, estudantes e discípulos na Índia dentro daquilo que eram capazes de entender, dentro de seu contexto. E também ensinou a incontáveis seres em incontáveis universos, mas em cada um desses universos e campos búdicos havia uma cultura.

O Contexto Indiano

Analisando os ensinamentos budistas que foram transcritos e estão disponíveis hoje em dia, encontramos temas que podem ser achados em praticamente todos os sistemas indianos de filosofia e pensamento. Um exemplo disso é o karma e o renascimento. Outro é o modelo de um caminho no qual ouvimos os ensinamentos de um professor espiritual, refletimos, meditamos sobre eles e finalmente atingimos a libertação da ignorância e do renascimento samsárico.  Em outras palavras, a libertação vem do entendimento da realidade e da purificação do karma. Descobrimos que diversos sistemas indianos têm isso em comum, juntamente com ensinamentos sobre amor, compaixão e métodos para atingir concentração. Até mesmo os ensinamentos sobre como atingir shamata e vipassana, os quais às vezes pensamos que são especificamente budistas, não o são. Outros sistemas indianos também ensinam métodos para alcançar o estado mental de quietude de shamata, e o estado excepcionalmente perceptivo de vipassana.

O Buda modelou sua comunidade monástica pela comunidade Jain que já existia antes. O encontro bimestral de monges e o conceito do refúgio já acontecia antes do budismo, no jainismo. Fazer oferendas e a aceitação de diferentes seres em diferentes reinos também. As criaturas infernais, os fantasmas e os deuses certamente são encontrados em todos os sistemas indianos, juntamente com o Monte Meru e os quatro continentes. Se tirássemos tudo isso, ou seja, o contexto cultural indiano, o que sobraria?

Os Aspectos Culturais da Prática Budista e Os Aspectos Essenciais ao Budismo

Está claro que o budismo foi ensinado dentro do contexto da cultura indiana. Mas quando olhamos para como ele foi disseminado em outras culturas asiáticas, descobrimos que todos esses aspectos que acabamos de mencionar foram mantidos. Os tibetanos os mantiveram, os chineses os mantiveram, os japoneses os mantiveram, os asiáticos do sul os mantiveram. É claro que em cada um desses países foram adicionados alguns elementos a esses elementos básicos, o que ajudou a fazer com que os ensinamentos se tornassem um pouco mais aceitáveis nas diferentes culturas.

Muitos dos elementos que essas culturas asiáticas adicionaram eram bastante superficiais, como é o caso das bandeiras de orações tibetanas, que vieram da tradição Bon, que já existia no Tibete. Portanto, precisamos diferenciar esses aspectos específicos, que foram adicionados ao budismo por outras culturas, dos aspectos indianos mais fundamentais. Depois, temos que ver se, tirando até mesmo os aspectos indianos, sobra alguma coisa que caracterize os ensinamentos como budistas.

Aspectos Culturais Específicos e Superficiais

Muitas das características que outras culturas adicionaram ao budismo foram adicionadas por razões práticas. Os tibetanos, por exemplo, não eram capazes de seguir alguns dos costumes indianos pois não tinham no Tibete aquilo que se tinha na Índia. É o caso das oferendas. Os tibetanos não têm muita variedade de flores para usar como oferendas, então eles usam uma coisa seca, branca e fina como papel, parecida com uma folha, que pode ser achada dentro de uma vagem e cresce em algumas árvores do Tibete. Chamam a isso de flores. Então será que temos a mesma coisa? Claro que não. Os tibetanos usam lamparinas de manteiga, assim como os indianos. Será que também temos que usá-las? Certamente não. Ao invés disso, podemos usar lâmpadas elétricas? Por que não? É luz do mesmo jeito. Alguns tibetanos fazem isso na Índia, e também oferecem flores de plástico, porque duram mais. Os tibetanos são muitos práticos.

E o que dizer das pinturas thangka? Os tibetanos costuram o brocado chinês e o transformam em pintura de rolagem. Será que precisamos fazer isso também? Não necessariamente, a menos que amemos esse estilo. Isso é bastante superficial.  Ao invés disso, podemos mandar colocar molduras em pinturas budistas.

E o que dizer da música? Os tibetanos tinham instrumentos musicais diferentes dos que havia na Índia. Eles compunham seus próprios acompanhamentos musicais. Será que temos que tocar os instrumentos tibetanos, ou podemos tocar um trombone ou saxofone como oferenda? Seria isso aceitável? Em teoria, por que não? O objetivo dessas oferendas é desenvolver e praticar a generosidade. No que diz respeito aos budas, eles certamente não se importam se estão ouvindo uma cítara indiana, um chifre longo tibetano ou um saxofone ocidental. Que diferença isso lhes faria? Com certeza nenhuma. O importante é que seja respeitoso e não soe como uma tola melodia popular.

Que outras coisas podemos pensar no que se refere à mudança de uma cultura para a outra? O que dizer dos mantos monásticos? Os mantos tibetanos certamente têm uma cor e uma forma diferentes dos mantos do sudeste asiático, assim como os mantos chineses e os mongóis. Mas todos têm mantos. Isso é o que importa.

Faz parte dos costumes tibetanos que alguns homens se casem com mais  de uma esposa e, tradicionalmente, na China isso acontecia com certa frequência. Algumas mulheres tibetanas também tinham mais de um marido. Como é que isso se adequa aos ensinamentos sobre sexualidade imprópria? Ou seja, os tibetanos e chineses adaptaram seus costumes aos ensinamentos indianos sobre o tema. Será que temos que adotar essas práticas de poligamia e poliandria em nossas culturas? Claro que não. Mas o que dizer de outros aspectos do comportamento sexual que muitas pessoas no ocidente consideram normais, enquanto os textos tradicionais budistas os classificam como inadequados?

E o que dizer do idioma? Muitos lamas tibetanos enfatizam que deveríamos fazer as práticas em tibetano. Em uma recente palestra, Dzongsar Khyentse Rinpoche tocou num ponto bem interessante. Ele disse que, se os tibetanos tivessem que recitar todas as suas orações e práticas em alemão, escrito foneticamente em letras tibetanas, sem compreender nada do que estavam dizendo, não saberia dizer quantos tibetanos realmente o fariam. É óbvio que, embora alguns lamas insistam que façamos nossas práticas em tibetano, poderíamos questionar se isso é realmente útil. Os tibetanos com certeza não fazem as suas práticas em sânscrito. Eles usam o alfabeto tibetano, e nem mesmo pronunciam os mantras da forma como  são pronunciados em sânscrito. Eles pronunciam “vajra”, em sânscrito, como “benza”. Quando a palavra sai do Tibete e vai para a Mongólia, os mongóis a pronunciam como “ochir”. Qual é a versão correta? Na China não dá nem mesmo para reconhecer as palavras, e a pronúncia japonesa dos caracteres chineses é ainda mais distante da versão original.

Há muitas coisas que poderiam ser consideradas especificamente culturais. O que dizer da forma como as pessoas sentam em meditação? Os indianos costumam se sentar no chão, de pernas cruzadas. Os tibetanos também. Os budistas japoneses sentam-se sobre seus joelhos, com suas pernas voltadas para trás. Os tailandeses sentam com ambas as pernas viradas para um lado. Será que nós ocidentais, não acostumados a sentar no chão, poderíamos sentar em cadeiras? Para determinadas práticas do tantra, que envolvem trabalhar com os sistemas de energia sutil, talvez não seja possível. Mas para a prática comum, por que não? Até mesmo a forma como é feita a prostração difere nos países asiáticos. Nesses casos, temos que pensar no princípio que há por detrás da prática e meditar com disciplina, ao invés de simplesmente tentarmos nos sentar de uma forma tradicional.

Outra coisa que é bem tibetana, e provavelmente poderia ser colocada na categoria superficial, de coisas específicas que valem a pena se gostarmos delas, mas que não são imprescindíveis caso não gostemos, são as tormas. Trata-se de cones feitos de farinha de cevada misturada com manteiga e decorada com desenhos feitos de manteiga esculpida. Meu próprio professor, Serkong Rinpoche, costumava dizer que podemos usar uma caixa de biscoitos ao invés disso – não há necessidade de fazer todas essas elaboradas oferendas de tormas.

As Características Culturais Indianas

Olhemos agora para as características gerais da cultura indiana, como karma, renascimento, libertação e iluminação. Será que poderíamos ter budismo sem elas? Acho que isso seria querer demais. O que sobraria? A meditação é uma prática que encontramos em todas as culturas indianas. Será que temos que descartá-la por ser algo que culturalmente vem da Índia? Coisas como a postura que usamos ao meditar podem diferir de uma cultura para a outra, mas o método em si é obviamente uma parte essencial do caminho budista.

Os ensinamentos de lam-rim, do caminho em etapas, do budismo tibetano, deixam bem clara a fronteira entre o que é a prática do dharma e o que não é a prática do dharma. Ter ou não ter o objetivo de beneficiar vidas futuras é a fronteira. Se a sua prática visa apenas beneficiar esta vida, não é o dharma do Buda. Isso fica bem claro nos ensinamentos. Depois, há os três níveis de objetivo ou motivação do lam-rim: obter melhores renascimentos futuros, alcançar a libertação do renascimento, e chegar à iluminação para poder ajudar todos os outros a se libertar do renascimento. É possível não ter renascimento no budismo? Eu diria que não. Mas no que diz respeito a ter uma vida futura e um renascimento melhor, isso com certeza não é exclusivo do budismo nem dos outros sistemas indianos. Religiões bíblicas também têm isso de uma forma modificada, com o desejo de ir para o paraíso após a vida terrena. Isso é renascimento, não é mesmo? Aliás, um renascimento bem melhor! Não obstante, já que apenas melhorar os renascimentos futuros não é um objetivo absoluto no budismo, que apenas nos possibilita ter circunstâncias mais conducentes a continuar no caminho, isso pode tranquilamente ser incluído como parte do budismo.

Com apenas uma exceção, todos os sistemas filosóficos indianos afirmam que renascimentos sem início vêm da ignorância a respeito da realidade e do karma. Todos eles também têm como objetivo a libertação dos renascimentos sem fim através de um entendimento correto. Portanto, é claro que apenas querer a libertação do renascimento e do karma através do entendimento da realidade também não é, em si, uma exclusividade budista. Mas, ao mencionar esses outros sistemas indianos, o Buda proclamou que a libertação da qual eles falam não é uma libertação verdadeira, pois está baseada em um entendimento incorreto da realidade. Ele explicou que a libertação vem do entendimento de que os tipos de alma, atman, que eles afirmam existir, não corresponde a nada de real. Realizar de forma não-conceitual a total inexistência ou vacuidade de suas almas impossíveis é o que traz a libertação dos renascimentos sem fim. Obviamente, os outros sistemas disseram a mesma coisa a respeito do budismo: que o que o Buda ensinou era incorreto e que apenas seus sistemas eram corretos. Mas, mais tarde, diversos mestres budistas defenderam a posição do Buda em debates com mestres de outros sistemas, e argumentaram de forma muito convincente.

Toda essa questão do renascimento é crucial para entender o sentido dos ensinamentos sobre o karma, pois os resultados de nosso comportamento não amadurecem necessariamente nesta vida. Na verdade, a maioria não amadurece. Esta é uma questão bem difícil: “Por que devo seguir a ética budista se posso trapacear e não sofrer as consequências?” Precisamos entender o renascimento para realmente lidarmos com o karma e conseguirmos nos libertar dele, e para compreendê-lo, temos que entender todos os princípios de causa e efeito comportamentais.

O Buda não tinha a intenção de que seus ensinamentos fossem apenas para uma audiência indiana. Sua mensagem era universal, mas incluía elementos da cultura indiana, do karma, do renascimento e da libertação do renascimento. Portanto, temos que considerar seriamente qual é o objetivo do caminho budista. Será que é apenas melhorar as coisas nesta vida? Será que é para melhorar o mundo para as futuras gerações, para que nos preocupemos com o meio-ambiente, o aquecimento global? Independente de outros sistemas indianos também falarem de renascimentos melhores, libertação e iluminação, esse era o objetivo do dharma do Buda, embora seu entendimento de como alcançá-lo fosse diferente.

Trecho livremente traduzido e editado, do original Distinguishing Buddhism form Asian Culture 

 

 

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