O Treinamento de Sensibilidade de Alex Berzin – Resumo

Nesse treinamento, sentamos em um círculo com outras pessoas e tentamos desenvolver atitudes positivas em relação a essas pessoas, pessoas reais. E o que fazemos nesse programa é trabalhar em três níveis. Primeiro trabalhamos com as pessoas que não estão presentes, mas, ao invés de visualizá-las, o que para muitos é difícil, trabalhamos com fotos – não há nada de errado em trabalhar com fotos.

Trabalhamos com fotos de pessoas com quem temos um relacionamento afetuoso, usando os exercícios do programa para desenvolver uma atitude zelosa, e tentamos ver essas pessoas como “Você é um ser humano que tem sentimentos, assim como eu. Um ser humano cujo estado de humor afeta a forma como se sente, assim como acontece comigo. E a forma com eu lhe tratar afetará seu humor e sentimentos, assim como a forma que você me tratar afetará o meu humor e sentimentos. Portanto, eu o respeito como ser humano, levo à sério seus sentimentos e zelo pelo seu bem-estar. Me preocupo com a forma como lhe trato”.

Isso é muito importante, é uma base para a disciplina ética. É o nome de todo um capítulo de Shantideva, e ele dedicou dois capítulos à autodisciplina ética. No tibetano, o título do primeiro capítulo significa ter uma atitude zelosa. Assim, evitamos ferir os outros, porque os levamos à sério, levamos seus sentimentos à sério e também o fato de que o nosso comportamento os afeta. Portanto, procuramos tratá-los da melhor maneira possível.

Portanto, primeiro trabalhamos com as pessoas com quem temos um relacionamento afetuoso, usando a foto delas, e repetimos “Você é um ser humano, você tem sentimos, assim como eu” e assim por diante. Depois trabalhamos com fotos de estranhos, fotos de uma revista, e repetimos: “Você é um ser humano, você tem sentimos como eu” e assim por diante. Essa é uma prática muito importante quando trabalhamos com clientes, quer seja em uma loja ou em qualquer profissão que lide com pessoas. Sempre que uma pessoa vier a nós: “Você é um ser humano, você tem sentimos como eu”.

A seguir, trabalhamos com alguém com quem temos um relacionamento difícil, alguém de quem não gostamos: “Você também é um ser humano que tem sentimentos, assim como eu”. E depois trabalhamos com as pessoas do círculo, olhamos umas para as outras: “Você é um ser humano, você tem sentimos assim como eu”. Olhamos para cada um, sentindo de verdade que ele ou ela é um ser humano e tem sentimentos e “se eu for rude com você, se o ignorar, se for bruto, você não se sentirá bem, você se sentirá mal, assim com eu me sentiria mal”.

Trabalhamos um a um, e isso é muito mais poderoso. Essa é a segunda fase. A terceira fase é trabalharmos conosco. Olhamos no espelho: “Sou um ser humano, tenho sentimentos como todo mundo e a forma como eu me trato vai me afetar. Se eu trabalhar demais, se não souber quando descansar, isso afetará minha interação com os outros, assim como o faria com qualquer pessoa”. Essa é uma forma de nos levarmos a sério e também de levarmos a sério o efeito que nosso comportamento tem sobre nós.

A seguir, tentamos fazer isso sem o espelho; trabalhamos com nossas fotos antigas, especialmente de períodos difíceis: “eu era um ser humano, tinha sentimentos e estava tentando fazer o melhor que conseguia. Se, a pessoa que me tornarei daqui a dez anos olhasse para mim agora e sentisse vergonha de mim e de meus pensamentos, isso me machucaria muito, afinal, estou dando o melhor de mim. Da mesma forma, a pessoa que eu era há dez anos atrás não gostaria que eu tivesse vergonha dela, ou que me sentisse desconfortável ou incapaz de lidar com a pessoa que eu era naquela época”.

O “Eu” Convencional e o “Eu” Falso

Para entender a equanimidade mais profundamente, precisamos introduzir um ponto importante dos ensinamentos budistas, a diferença entre aquilo que o budismo chama de “eu” convencional e de “eu” falso.

O “eu” convencional é aquilo que é imputado na continuidade de momentos de nossa vida. Tudo que aconteceu em nossa vida – sucessos, fracassos, ou apenas as coisas comuns do cotidiano – é igualmente e simplesmente algo que aconteceu em nossa vida. O padrão da vida é de continuamente termos altos e baixos; afinal, o tempo de uma vida abrange e engloba todos esses momentos. O “eu” convencional existe e se refere a essa continuidade de momentos. É claro que eu existo; mas a minha existência é baseada em todos esses acontecimentos que foram mudando ao longo de minha vida. Esse é o “eu” convencional, ele está sempre mudando.

O “eu” falso não existe em absoluto. É apenas algo que projetamos. O que projetamos é um “eu” identificado com apenas uma parte, um evento – “Eu falhei, não sirvo para nada!” – e que nunca muda. Imaginamos que essa é a totalidade do “eu”: “Sou culpado” ou “Sou tão maravilhoso. Sou um presente de Deus para o mundo” ou “Sou uma pessoa tediosa. Não sou ninguém. Sou apenas uma parte pequena e insignificante na grande máquina da sociedade. Que tédio!” Esse é o falso “eu” que imaginamos como concreto e permanente, mas que não existe em absoluto. Quando temos emoções perturbadoras, é porque estamos nos identificando com esse falso “eu”.

O que temos que entender é que essa projeção de um “eu” falso não corresponde a nada de real. Precisamos então reafirmar o “eu” convencional, que possui muitos aspectos, todas as coisas que aconteceram em nossa vida: quando fomos bem-sucedidos, quando não fomos e quando nada de especial estava acontecendo. Tentemos reafirmar isso. Se você tem falsas ideias a respeito do “eu”, se está identificado com apenas um ou dois acontecimentos, se está preso neles, simplesmente diga: “Isso é besteira, não é a realidade.”

Ao imaginar esses três incidentes em nossa vida, tentemos compreender que somos tudo isso: é o que chamamos de “eu” convencional, e está mudando o tempo todo, à medida que diferentes coisas acontecem em nossa vida. Nunca estagnamos em um acontecimento. Tentemos ficar calmos em relação a isso: sem repulsa, atração e nem indiferença no que se refere ao “eu”, simplesmente abertos a cada momento da vida, sem dramatizar nada daquilo que acontece. Basicamente, isso faz com que fiquemos em paz conosco e nos aceitemos. Assim, podemos desenvolver mais atitudes positivas em relação aos outros. Mas primeiro precisamos ficar em paz conosco.

Trecho extraído do original  A Balanced Approach to The Dharma

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